Mostrar mensagens com a etiqueta fotografias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta fotografias. Mostrar todas as mensagens

"entrada e saída de viaturas"

Ai se a curiosidade matasse... bem, eu certamente estaria "morta, matada, morrida", como dizíamos quando éramos miúdas! Sempre fui curiosa, faz parte de mim. Esta vontade de saber mais acompanha-me desde que nasci. Na ponta da língua sempre estiveram o porquê?, como?, quando?,para que serve?, posso abrir o presente?, para quem é?, o que está lá dentro? Enfim, uma curiosidade saudável mas aguçada!

E aquele portão... ai, aquele portão dava cabo de mim... estava sempre fechado. Ninguém entrava, ninguém saia... Estava arranjado, bem pintado, com uma barra alentejana de um azul turquesa que enchia o olho e com uma cortina da mesma cor no postigo. E era exactamente abaixo do postigo que tudo se complicava na minha cabeça. 

Como é que um portão com aquele ar de casa de bonecas depois tinha uma placa que nos transmitia a seguinte mensagem PROIBIDO ESTACIONAR - entrada e saída de viaturas.
Adorava conseguir espreitar lá para dentro, tinha a certeza que encontraria uma bicicleta cor-de-rosa com um cestinho à frente, ou até mesmo uma Famel decorada com autocolantes floridos e um capacete de menina a acompanhá-la. Sim tudo menos um carro, que por ali não conseguiam passar veículos de quatro rodas.


Mas o portão nunca se abriu e eu nunca percebi o que escondia; quem lá vivia e que tipo de viatura conduzia.

Enfim, o "número 9 azul turquesa" foi para dentro da minha caixa de curiosidades por resolver. Está lá juntamente com "o que é que estava dentro daquele embrulho fantástico que a Sofia levava na mão naquela noite de verão em que fomos ao jardim", com "o que se esconde dentro de todos aqueles baús antigos guardados no sótão", e com outras tantas outras curiosidades ainda, e talvez para sempre, por resolver.

*foto do Buscassóis

De pés em pés

De pés em pés a professora olhava atenta... um, dois, três... marcava o ritmo.

As meninas, de cabelo apanhado atrás, pés descalços, maillot e tutus cor-de-rosa, estavam entusiasmadíssimas. Era a primeira aula. Era a primeira aula mas elas ansiavam calçar as sapatilhas. Queriam saltar no ar e voar como borboletas.

As suas mães assitiam orgulhosas. Aquelas crianças eram uma extensão de si próprias, iriam ser as bailarinas que as mães sonharam mas nunca foram. As meninas espelhavam a infância que elas queriam ter tido. Estas mães sonhavam com o Lago dos Cisnes e com o Quebra-Nozes.


A verdade é que a maior parte destas meninas não chegará a dançar em pontas. Cansam-se e querem experimentar natação, judo ou ginástica.

Mas para estas mães este primeiro momento já as encheu de orgulho e já valeu por tudo!

Que os há, há! São vermelhos e suculentos.

É a Francisca que faz as compras lá para casa. Geralmente ao Sábado de manhã aproveita que os miúdos ficam com o João, que os leva ao parque no seu momento semanal de pai e filhos e vai ao mercado.

Foto de Buscassóis - Maio 2011
Esta ida ao mercado transporta-a para o quintal dos seus avós. Quando era pequena passava as tardes com eles. Adorava ajudar o avô a tratar da horta, arrancavam as pequenas ervas que iam crescendo (jura que um dia chegou a encontrar um trevo de quatro folhas!) regavam e apanhavam as couves, a salsa e os coentros, os tomates, os morangos... ai os morangos... enfim, a diversidade dependia da estação do ano. Nunca tinha percebido como é que um pedaço de terra tão pequeno conseguia ser tão fértil. Tinha para si que isso só acontecia por causa do amor que os avós dedicavam àquela terra.

Tempos que já lá vão... os avós já partiram, a casa vendeu-se e a Francisca nunca mais lá voltou. Para recordar resta-lhe apenas a ida ao mercado no sábado de manhã e todas as memórias daqueles tempos.

A Francisca já conhece os vendedores e eles já a conhecem a ela. Na banca da D. Maria costuma comprar a abóbora, as cenouras e as batatas; na do Sr. Zé as maçãs, peras, bananas e mais alguma fruta; há ainda a banca da Florinda peixeira, que esta semana lhe amanha um belo Robalo para assar no forno. Mas quando chega a Primavera onde a Francisca gosta mesmo de ir é à banca da D. Estrela, tem os melhores morangos do mundo... pequenos, muito vermelhos e deliciosos.

Quando chega a casa a Francisca já sabe como vai ser, a chuva já se foi embora, os dias de sol são cada vez maiores e os miúdos lembram-se todos os anos da mesma brincadeira. Os dois correm para os seus braços e perguntam-lhe com os olhos a brilhar:

"E morangos Mãe?! Já há morangos?!"

"Hum... - responde a Francisca - Que os há, há! São vermelhos e suculentos. Mas... e vocês merecem?!"

Inevitavelmente, depois de um ataque de cócegas, muitos beijinhos à mistura, e muitos "Sim mãe, claro que merecemos!" acabam os três na cozinha a preparar o almoço e a devorar morangos!

A vista da Janela

Para quem não vivia ali no bairro aquela era apenas mais uma janela.

Foto de Buscassóis - Maio 2011
Para os que viviam, aquela era a janela da Rosinha. Moça nascida e criada por ali, naquela casa. Era naquela janela que a sua mãe, em tempos idos, namorava com o seu pai. Era naquela janela que a mãe lhe lia as cartas do pai, quando ele esteve no Ultramar. Rosinha era bebé, não se lembra, mas ouviu esta história da boca da sua mãe vezes e vezes sem conta... foi também naquela janela que a mãe recebeu a triste notícia... o pai da Rosinha tinha morrido na Guiné. 

Mas aquela janela encerrava em si tantas outras recordações, tantos outros momentos. Era ali que Rosinha fazia os seus trabalhos de casa e era ali que a Maria, a São e a Luísa a iam buscar para a levarem para o largo da igreja e saltarem ao elástico até o sol se pôr.

Foi também naquela janela que a Rosinha chorou a morte da mãe e ficou responsável por si própria. Foi ali que colocou a sua máquina de costurar Singer e se tornou modista como a mãe tinha sido.

O que poucos sabem é que para o António aquela não é apenas mais uma janela. Aquela é a a janela da ROSINHA. Para o António aquela é a janela onde a Rosinha põe o vaso de flores vermelhas para lhe dar o sinal... o sinal de que pelas onze da noite a porta estará encostada e o convidará a entrar...

A vista da janela

Foto de Buscassóis - Maio 2011
Depois de algumas propostas para participar, surgiu um desafio ao qual não posso fugir. Assim, não só andarei por aí, como passarei por aqui de vez em quando. Fui atirado às cordas e não me restou outra alternativa a não ser aceitar esta empreitada. Não sou de fugir e por isso, apesar da falta de perícia, por aqui verão passar o produto daquilo que julgo estar ainda a dar os primeiros passos. Veremos se com o tempo o produto melhora… e veremos com o tempo a resposta do Girassol!
Hoje, aqui fica “A vista da janela”!